Mulher desiste do crack após sete anos nas ruas e recupera autonomia com maconha

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CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Franciele Silva, 43, lembra-se bem da data em que a vida deu uma reviravolta: 8 de agosto de 2008. Após um episódio de violência doméstica, ela fugiu com as três filhas para Curitiba (PR). Tinha 28 anos e estava casada havia 12.

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Sem conhecer ninguém na capital paranaense, começou a vender balas nas ruas. Dois meses depois, o Conselho Tutelar recolheu as crianças e as entregou para o então marido de Franciele, pai de duas das filhas.
“Perdi o chão, o rumo. No dia seguinte, fumei a primeira pedra de crack e fiquei oito dias sem dormir e sem comer. Só fumando e chorando. Dali em diante, comecei a trabalhar para um traficante e a roubar.”

Franciele até tentou voltar a morar durante duas semanas com o marido, para estar próxima das filhas, mas recaiu e, após uma nova briga, foi viver na cracolândia, no centro de São Paulo.
“Lá eu fiquei por sete anos. Vi muita coisa feia, tive tuberculose, fui presa por tráfico, mas fui absolvida porque a juíza entendeu que eu era usuária.”

Em 2015, ela conheceu um rapaz no fluxo e ambos ingressaram no programa “De Braços Abertos”, implantado na cracolândia em 2014 pela gestão Fernando Haddad (PT) na Prefeitura de São Paulo e extinto pelo sucessor João Doria (PSDB).

Baseado na estratégia de redução de danos, o programa ofertava moradia, trabalho (os participantes ganhavam R$ 15 por dia por serviços como varrição e reciclagem) e acompanhamento médico. Estudo apontou que dois terços dos beneficiários reduziram o uso da droga. O abrigo nos hotéis da região, contudo, mostrou-se temerário: o tráfico acabou se infiltrando nesses locais.

“Fiquei 15 dias sem fumar crack. Para segurar, comecei a fumar maconha porque ia conhecer a mãe dele [do parceiro] e não queria que ela me visse com os dedos queimados [pelas pedras do crack]. Eu não prometi parar, mas depois disso não tive mais coragem de fumar crack. Isso foi no dia 28 de maio de 2015.”

Quase nove anos depois, ela mantém o uso de cânabis em forma de cigarro e de óleo, o canabidiol, faz acompanhamento psiquiátrico e utiliza o clonazepam, medicamento indicado para tratamento do distúrbio do pânico e da ansiedade. “Se eu não tomo, eu não durmo. Fiquei com sequelas do crack.”

Assim como Franciele, muitos pacientes têm desistido de perseguir a abstinência total de drogas, condição imposta por muitos serviços que oferecem internações como tratamento da dependência, e conseguido resgatar a autonomia e a dignidade por meio de estratégias de redução de danos.

“Nos melhores tratamentos do mundo com proposta de abstinência total, depois de dois anos de acompanhamento, só 20% conseguem essa meta. É uma grande perversidade a defesa da abstinência total como única estratégia aceitável”, diz o psiquiatra e palhaço Flávio Falcone, que atua na cracolândia.

Depois de deixar o fluxo, Franciele adotou sua quarta filha e se reaproximou das outras três. Para sobreviver, ela já teve banca de batata frita e pastel e, desde 2020, cadastrou-se em um aplicativo e atua como carroceira de recicláveis na região de Higienópolis (SP).
Também já trabalhou como educadora técnica em projeto de reeducação de danos na cracolândia e fez um curso de cuidadora. Até o fim deste ano, espera se recuperar totalmente do tratamento para o câncer de intestino que foi diagnosticado no fim do ano passado e concluir o ensino médio.

“Puxando carroça, conheci esse lado da sustentabilidade, do meio ambiente. Quero continuar atuando com isso e também com redução de danos.”

Segundo Falcone, não há oposição entre o modelo de redução de danos e o da abstinência total. “Cada pessoa tem o seu caminho. A gente constrói um projeto de terapêutico de acordo com as condições de cada pessoa e isso pode, inclusive, resultar em abstinência total”, reforça.
Para o psiquiatra Luís Fernando Tófoli, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e pesquisador de políticas sobre drogas, a ideia central da redução de danos é diminuir o impacto do uso problemático das drogas. “É uma visão deturpada achar que redução de danos é desistir da abstinência.”

Karin di Monteiro, que coordena o núcleo de ensino e pesquisa da ONG É de Lei, diz que essa ideia equivocada de que só existe um caminho, o da abstinência total, muitas vezes afasta as pessoas de tratamento.
“Elas tentam várias vezes, até conseguem ficar períodos abstinentes, mas voltam. Isso não significa que é uma falha da meta. Sem a gente impor essa obrigatoriedade de abstinência, muitas vezes a pessoa chega nesse lugar sozinha, vira uma chave.”

Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra e professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que, em média, 70% das pessoas que buscam tratamentos para a dependência não conseguirão ficar abstinentes.

“A redução de danos é um plano B que dá certo. Muitos arrumam emprego, conseguem manter um relacionamento estável, se responsabilizam pela própria vida.”

De acordo com ele, a médio prazo, depois de um acompanhamento de dois a quatro anos, metade das pessoas inseridas em programas de redução de danos está abstinente.

“Embora não seja pré-requisito a abstinência, o fato de se tolerar que aquele indivíduo consuma [alguma droga], mas não de forma prejudicial, é um caminho para ele também ficar abstinente.”
Entre os que não conseguem a abstinência após esse período, 75% mantêm estratégias de redução de danos usando outras substâncias de uma forma controlada. “Ela desiste do projeto de abstinência total e vivem uma vida praticamente normal”, conta Silveira.

Para o psiquiatra Alexandre Valverde, a redução de danos é uma perspectiva mais realista para o paciente. “Essa ideia de que o paciente vai obedecer e adotar [a abstinência] porque você está na sua autoridade de médico dizendo que é esse o caminho é irreal. As pessoas abandonam os tratamentos e geram um circuito de frustração, culpa e punição, o que é totalmente contraproducente.”

Internacionalmente reconhecida pela OMS (Organização Mundial de Saúde), a redução de danos é política oficial em vários países como Holanda, Inglaterra, Canadá e Austrália. Em 2019, a gestão de Jair Bolsonaro (PL) pôs fim à redução de danos e colocou a abstinência como única política pública.

Silveira, da Unifesp, conta que muita gente que desiste de ficar abstinente nem precisaria perseguir isso porque, na verdade, não são dependentes químicos de fato, condição definida como a perda de controle do consumo.

“As pessoas tentam [a abstinência] porque a cultura do país é punitiva e policialesca com as drogas ilícitas. Só podem usar droga legalizada, como o álcool, se não são tachadas como dependentes químicos.”
Silveira explica que a dependência química atinge apenas uma minoria de usuários. Para o álcool, por exemplo, a taxa de dependência é de 15%, enquanto a maconha, de 9%, a cocaína, de 30%, e o crack, de 40%.

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