Brasil tem papel de liderança no combate à mudança climática, diz ex-secretário da ONU

(FOLHAPRESS) – O sul-coreano Ban Ki-moon, o oitavo secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), de 2007 a 2016, destacou que o Brasil é visto como referência global para no combate às mudanças climáticas, especialmente por abrigar a floresta amazônica.

“O Brasil tem papel de liderança no combate à mudança climática”, afirmou, elogiando a iniciativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de candidatar Belém, capital do Pará, para sediar, em 2025, a COP30, conferência de mudanças climáticas da ONU que negocia a implementação do Acordo de Paris.

“Apoio a iniciativa do presidente Lula e tenho certeza que o nome será bem avaliado”, disse. “Belém é a porta de entrada para a floresta.”.

Ki-moon foi um dos destaques da cerimônia de abertura da Conferência Internacional Amazônia e Novas Economias, que está sendo promovido na mesma Belém, pelo Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração).

Ele alertou que a intensificação das alterações no clima, logo após a pandemia da Covid-19, estão prejudicando inclusive a implementação dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) das Nações Unidas e elevando as desigualdades sociais.

Ele lembrou que, pessoalmente preocupado com esse empobrecimento em curso, aderiu ao grupo de economistas que, em carta aberta dirigida ao secretário-geral da ONU, António Guterres, e ao presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, pediu metas “mais ambiciosas” para combater a desigualdade e a disparidade de renda.

Em sua fala em Belém, foi enfático em afirmar que neste ano o mundo vive intensamente os efeitos das mudança climática em incêndios, secas, inundações, deixando desabrigados e levando a movimentos de grandes massas de pessoas, ampliando o risco de fome e doenças. Citou a Grécia e o Havaí.

“As mudanças climáticas já estão entre nós, e precisamos agir em conjunto. Vou repetir o que sempre digo, não existe planeta B.”

Ki-moon lembrou ainda que o Brasil já sofre com as alterações no clima e citou como exemplo as chuvas torrenciais que caíram no litoral norte de São Paulo, entre 18 e 19 de fevereiro, as maiores registradas em 24 horas na história do país.

“Mas de 600 milímetros caíram em uma única noite de Carnaval, matando 65 pessoas”, destacou.

Ele afirmou que a maioria dos países trabalham para zerar as emissões até 2050. Porém, alertou que grandes emissores ainda podem demorar um pouco mais, o que mantém o mundo sob alerta.

A China, o maior emissor de gases de efeito estufa, por fazer uso intensivo de combustíveis fósseis como o carvão, para gerar energia elétrica, tem a meta de trocar as térmicas poluentes por usinas nucleares e renováveis, para neutralizar as emissões até 2060. Infelizmente, destacou ele, outro importante emissor, a Índia, diz que não chegará a essa meta até 2070.

Ele lembrou que o mundo acabou de viver o mês de julho mais quente da história, e que, na média, a temperatura já está 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e não pode, em absoluto, avançar em direção a 2°C. Deter o aumento da temperatura já está se tornando uma questão de sobrevivência.

“Estudos apontam que nos próximos cem anos o planeta pode viver o sexto episódio de extinção em massa de sua história, Quando esse tipo de evento ocorre, significa que 75% das espécies desaparecem em curto espaço de tempo”, afirmou.

“O quinto evento de extinção ocorreu há 65 milhões de anos. O que a nossa geração fizer agora vai definir a vida no planeta nas próximas décadas.” Esse último fenômeno, afirmam os pesquisadores, marcou a extinção dos dinossauros, provavelmente, por causa da queda de um asteroide na Terra.

Ban Ki-moon é um antigo articulador dentro do debate sobre as mudanças climáticas, atuando para mobilizar governo e empresas para enfrentar a questão de maneira conjunta.

“Precisamos entrar em ação e precisamos fazê-lo pela cooperação internacional. Nenhum país pode combater as mudanças climáticas de modo isolado”, afirmou na entrevista que concedeu à Folha em 2015, às vésperas da COP21, quando ainda comandava a ONU.

“Quanto mais atrasarmos ou adiarmos a ação, mais caro será conter as mudanças climáticas.”

Apesar de ser uma atividade que historicamente prejudicou o meio ambiente, o setor de mineração no Brasil busca marcar seu lugar nessa agenda.

Em sua fala na abertura do evento, o presidente da entidade, o ex-ministro Raul Jungmann, reforçou que ao promover a conferência em Belém busca inserir o setor na mobilização global pela transição para a economia de baixo carbono.

O Ibram defende institucionalmente que o setor da mineração, apoiado em novas tecnologias e políticas consistentes de ESG (sigla em inglês para sustentabilidade ambiental, social e de governança corporativa) pode ajudar a compatibilizar o desenvolvimento da região amazônica com a conservação da floresta e o combate à pobreza.

Participam da conferência os presidentes de empresas que são referência no setor, como Eduardo Bartolomeo, da brasileira Vale, maior produtora de minério de ferro, pelotas e níquel, Otavio Carvalheira, da Alcoa Brasil, que opera minas de bauxita e refinarias de alumina, e Ana Cabral, que comanda a Sigma Lithium, mineradora que mais extrai lítio no Brasil.

Bartolomeu ressaltou na abertura do evento que a Vale conseguiu construir em 40 anos na região uma mineração sustentável e pretende intensificar essa atuação.

“Ficar na mineração não é suficiente”, afirmou ele. “A gente tem a oportunidade de desenvolver uma nova economia. A Vale entende que uma solução baseada na natureza faz parte do negócio.”

Os executivos dedicam especial atenção em detalhar as iniciativas socioambientais de suas companhias dentro do esfoço global do setor empresarial em fazer transição para uma economia de baixo carbono.

Também apoia e participa da conferência o presidente do Rohitesh Dhawan ICMM (sigla em inlgês para Conselho Internacional de Mineração e Metais).

O governador do Pará, Helder Barbalho, destacou na abertura que o combate ao desmatamento avançou neste ano, como um primeiro passo na estratégia de uma economia baseada na floresta em pé.

“Depois de anos difíceis, de janeiro a agosto, o tivemos uma queda de 44% do desmatamento”, afirmou. “Comparando os meses de agosto, a queda foi de 68%.”

Barbalho afirmou que o estado vai desenvolver a bioeconomia, a partir da promoção de investimentos em inovação e pesquisa, ao lado do desenvolvimento de cadeias produtivas e negócios sustentáveis.

“Estamos aqui para propor um modelo de desenvolvimento para uma economia de baixo carbono que possa manter a floresta em pé”, afirmou.

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