Colonos israelenses intensificam ataques contra palestinos na Cisjordânia

DANI AVELAR
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Enquanto as atenções se voltam para os milhares de mortos pela ofensiva na Faixa de Gaza, soldados e colonos israelenses vêm intensificando a violência contra palestinos na Cisjordânia.

Ataques em toda a extensão do território ocupado já deixaram 200 mortos e provocaram mais de 1.000 deslocamentos forçados desde o 7 de Outubro, segundo dados da Ocha, braço humanitário das Nações Unidas na região.

Nas semanas seguintes aos ataques terroristas do Hamas, que deixaram 1.200 mortos no sul de Israel, soldados israelenses mataram 191 pessoas na Cisjordânia, incluindo 51 crianças. A maioria das mortes ocorreu durante incursões em Jenin e Tulkarem. Também houve mortes em confrontos com manifestantes, e mais de 2.000 pessoas foram presas.

Além disso, as forças de ocupação têm dado proteção a colonos israelenses durante invasões a vilarejos e povoados palestinos. No período, foram registrados 251 ataques de colonos que resultaram em oito mortes, incluindo a de uma criança, além de danos a infraestrutura e lavouras. Quatro israelenses foram mortos por palestinos na Cisjordânia no período.

Os ataques de colonos vêm se tornando mais frequentes -média de 6 por dia desde outubro, contra 3 por dia no primeiro semestre deste ano e 2 no ano passado. Também estão mais violentos, com ameaças e uso de armas de fogo.

Em 26 de outubro, por exemplo, colonos aterrorizaram fazendeiros palestinos durante a colheita de azeitonas no vilarejo de Deir Istiya. Militares presentes ao local não interferiram para contê-los.

Em outro incidente no mesmo vilarejo, colonos distribuíram panfletos ameaçando uma segunda Nakba (catástrofe, em árabe), referência à expulsão de 750 mil palestinos e à demolição de mais de 500 vilarejos no território em que Israel se estabeleceu em 1948.

A atual campanha de intimidação já produz um novo deslocamento em massa. Mais de 143 famílias, totalizando 1.014 pessoas das quais 388 são crianças, deixaram suas terras em cerca de 15 vilarejos beduínos, comunidades agrárias com modo de vida tradicional.

É o caso do vilarejo de Khirbet Zanuta, que registrou ataques recorrentes de colonos nas últimas semanas, até que os cerca de 250 residentes decidiram abandonar o local.

“Os colonos destruíram nossas casas, caixas d’água, painéis fotovoltaicos e carros”, disse o morador Abu Khaled, 43, em depoimento à Ocha. “Eu senti a morte muito perto, a vi com meus próprios olhos. No dia 28 de outubro, tomei a decisão mais difícil da minha vida: sair de Zanuta e deixar tudo para trás. Fiz isso para proteger as minhas crianças.”

O alerta para a agressividade dos colonos havia acendido antes mesmo da atual onda de violência. Em 26 de fevereiro, centenas de colonos invadiram o vilarejo de Huwara, onde deixaram um rastro de destruição e cinzas.

Um palestino de 19 anos foi morto a tiros e outros ficaram feridos na ação, que foi descrita por militares israelenses como um “pogrom”, nome dado aos ataques contra judeus no Império Russo entre o final do século 19 e o início do século 20.
Ainda assim, nenhum dos colonos envolvidos nesse ataque a Huwara foi condenado até agora. O vilarejo voltou a ser invadido em pelo menos três ocasiões desde outubro.

A impunidade é a regra nesses tipos de agressão. Segundo levantamento da ONG israelense Yesh Din, 93% dos casos de ataques de colonos de 2005 a 2022 acabaram sem indiciamento.
Enquanto Israel usa o combate ao Hamas como justificativa para sua ofensiva sobre a Faixa de Gaza, o mesmo não pode ser dito sobre a Cisjordânia. Diferentemente de Gaza, que é governada pelo grupo terrorista desde 2007, a Cisjordânia não tem presença significativa da facção. O território é parcialmente administrado pela Autoridade Nacional Palestina (ANP), alinhada ao partido secular Fatah, rival do Hamas.

Sob ocupação militar de Israel desde 1967, a Cisjordânia tem cerca de 3 milhões de palestinos. Destes, 300 mil residem na chamada área C, divisão administrativa criada pelos Acordos de Oslo equivalente a 60% do território e onde Israel exerce controle total. O restante do território, dividido em áreas A e B, tem atuação limitada da ANP.

A área C também reúne cerca de 450 mil colonos israelenses, e é ali que se se concentra grande parte dos ataques. Enquanto os palestinos dos territórios ocupados estão sujeitos à lei marcial israelense, os colonos se submetem à legislação civil.

A presença desses colonos fere leis internacionais e dificulta negociações de paz com vistas à criação de um Estado palestino. A maior parte vive em assentamentos reconhecidos pelas autoridades israelenses, enquanto outros residem em “outposts” (postos avançados, em inglês), considerados ilegais até mesmo pelo ordenamento jurídico do país.

Os colonos justificam a sua presença na Cisjordânia com o argumento de que a região concentra locais sagrados para o judaísmo, segundo a Bíblia, e afirmam que os palestinos deixam suas terras por vontade própria.

Em declaração à agência de notícias Reuters, Shira Liebman, presidente do Yesha Council, principal organização de colonos na Cisjordânia, negou que os colonos ataquem palestinos ou que eles tenham envolvimento nas mortes registradas na região.
Os colonos compõem a base de apoio do governo do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, que conta com integrantes fundamentalistas e ultranacionalistas.

Após os ataques do Hamas, o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, ele próprio residente de um assentamento perto de Hebron, anunciou a distribuição de 10 mil armas para civis -não está claro quantos desses armamentos chegaram às mãos de colonos.

A colonização da Cisjordânia é estratégica para o projeto de anexação do território, objetivo declarado de Bibi, apelido pelo qual o premiê israelense é conhecido.

“Assentamentos coloniais israelenses representam um método-chave por meio do qual Israel estabeleceu e mantém um regime institucionalizado de opressão e dominação racial que equivale ao crime de apartheid contra o povo palestino”, afirmam 26 ONGs palestinas em carta enviada a líderes mundiais.

Até mesmo aliados de Israel têm subido o tom das críticas. O presidente dos EUA, Joe Biden, pediu a responsabilização dos “colonos extremistas”, enquanto a chancelaria da França chamou os ataques de “política do terror”.

Procurada, a Embaixada de Israel no Brasil não se pronunciou até a publicação deste texto.

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