Com paradinhas e refrão forte, Mangueira empolga no primeiro dia de desfiles no Rio de Janeiro

(FOLHAPRESS) – Contando a história do povo banto e sua influência na formação da cidade do Rio de Janeiro, a Estação Primeira de Mangueira empolgou na Marquês de Sapucaí, no primeiro dia de desfile do Grupo Especial, na madrugada de segunda (2).

 

Apesar disso, a escola passou momentos de apreensão no final por conta do tempo máximo para executar o desfile. A agremiação precisou acelerar as últimas alas e terminou a apresentação faltando pouco mais de 1 minuto para o tempo limite.

A torcida da Mangueira era maioria entre os presentes no sambódromo. O público vibrou com as diversas paradinhas que a bateria da escola fez. O refrão forte também fez sucesso e ajudou as pessoas a cantarem o samba.

A Comissão de Frente na qual figuras do povo banto se transformavam nos “crias” das favelas foi um dos pontos que mais agitaram o público, em especial, quando os dançarinos simulavam a forma de empinar uma pipa em meio aos chamados “passinhos”, um jeito de dançar funk. A escola usou drones para fazer as pipas voarem.

Unidos de Padre Miguel, Imperatriz Leopoldinense e Viradouro foram outras escolas que estiveram na avenida.

O novo formato de desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro colocou, neste ano, duas das principais escolas da década dividindo o protagonismo em sequência.

Unidos do Viradouro e Imperatriz Leopoldinense desfilaram em seguida – a segunda e terceira escolas, respectivamente – nesta primeira noite de apresentações na Marquês de Sapucaí.

Este ano, a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) instituiu pela primeira vez o desfile dividido em três noites (domingo, segunda e terça-feira). De 1984 a 2024, os desfiles aconteceram em duas noites.

O tempo de apresentação das escolas também aumentou. Agora, elas têm entre 70 e 80 minutos para completar o desfile (antes, a conclusão deveria acontecer entre 60 e 70 minutos).

Sorteadas para desfilar em sequência, Viradouro e Imperatriz protagonizam uma rivalidade recente.

A Viradouro, estruturada com subvenções das prefeituras do Rio e de Niterói, cidade base da escola, venceu títulos em 2020 e 2024 (com a Imperatriz vice). A Imperatriz levou o título de 2023 (com a Viradouro vice).

A atual década marca uma mudança de postura institucional da Imperatriz. A escola, no vitorioso início dos anos 2000, era chamada pelos adversários de “Certinha de Ramos”, por conta da boa técnica de desfile e uma certa frieza com o público.

Atualmente a escola de Ramos tenta se reconectar com o Complexo do Alemão, morro mais perto de sua quadra, fazendo exibições na comunidade e ampliando a presença de moradores por lá.

Com Leandro Vieira, o mais celebrado carnavalesco atual, a agremiação tem apresentado enredos leves.

No primeiro desfile do Grupo Especial do Rio, a Unidos de Padre Miguel fez uma homenagem a Iyá Nassô, considerada mãe dos terreiros de candomblé no Brasil. Ela foi a fundadora da Casa Branca do Engenho Velho, um dos terreiros de candomblé mais antigos do país.

“Iyá Nassô é rainha do candomblé!”, cantou a escola ao passar pela avenida em uma apresentação que celebrou a herança africana e a força do axé que faz viver.

A atriz Jéssica Ellen interpretou Marcelina Obatossi, que deu continuidade ao trabalho de Iyá Nassô.

Durante o desfile, carros e alas retrataram a vida de escravizados e as manifestações da fé.

A Revolta dos Malês, uma insurreição de escravos, muitos deles muçulmanos, que aconteceu em 1835, em Salvador, também foi lembrada no desfile.

Segunda escola a entrar na Sapucaí na primeira noite do Grupo Especial do RJ, a Imperatriz Leopoldinense colocou uma lenda africana na avenida e desfilou com orixás pela Sapucaí.

A Comissão de Frente trouxe uma dança das águas, com uma fonte jorrando sobre os dançarinos, em coreografia que simbolizava purificação.

“O enredo conta a história da visita de Oxalá a Xangô, os percalços do caminho dos encontros de Oxalá com Exu e encerra esse Carnaval olhando para o mito que se transforma em rito na cerimônia das águas de Oxalá, praticada por inúmeras casas de candomblé no Brasil”, disse à TV Leandro Vieira, carnavalesco da escola.

Durante o desfile, foi anunciado que “Ainda Estou Aqui”, filme de Walter Salles, foi o vencedor do Oscar de melhor filme internacional. Com o desfile em andamento, não houve divulgação na Sapucaí, mas o público foi descobrindo aos poucos e comemorou o prêmio, o primeiro Oscar brasileiro.

A Unidos do Viradouro, terceira escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, na Marquês de Sapucaí, entrou na avenida sob gritos de “É campeã”.

Os gritos vieram do setor 1, onde ficam mobilizadas torcidas organizadas das escolas.

Antes do início do desfile, o locutor oficial da Sapucaí anunciou a vitória de “Ainda Estou Aqui” no Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro.

A escola de Niterói atual campeã, contou a trajetória de João Batista, líder do quilombo do Catucá no século 19, cuja luta por liberdade o tornou Malunguinho, figura reverenciada na jurema sagrada, uma tradição espiritual afro-indígena.

Ao longo do desfile, a escola apresentou alguns problemas técnicos em quesitos como fantasias e na evolução da escola.

O último carro, com o tema “Essência de Jurema”, trouxe Malunguinho tomando a bebida feita a partir da planta.

O fogo apareceu já na Comissão de Frente, que trouxe representação do personagem em um canavial se tornando Malunguinho, sendo encantado e derrotando com fogo seu algoz, um feitor que o havia ferido.

O segundo carro alegórico trouxe um efeito holográfico de uma chave brilhante -“a chave que um dia abriu a tranca dos portões do cativeiro, agora fecha o corpo dos enfermos”, diz a escola na sinopse do enredo.

Rainha da bateria, a atriz Erika Januza usou uma fantasia com penas douradas da qual saía fumaça, elemento que carrega significados espirituais na mitologia de Malunguinho.

A Mangueira, quarta e última escola a desfilar na Sapucaí, teve o enredo sobre a cultura banto no Rio de Janeiro e a identidade da juventude negra. O tema também menciona os impactos da violência no cotidiano dos jovens negros.
“O alvo que a bala insiste em achar/Lamento informar/Um sobrevivente”, diz um trecho do samba-enredo.

Os povos bantos têm origem em países da África Central, como Angola, Gabão e Congo. Grande parte dos escravizados trazidos para o Brasil faziam parte desse grupo.

A Comissão de Frente simbolizou o renascimento do povo banto, trazido à força ao Brasil e que “que floresce nas vielas”. Na performance, dançarinos usando trajes tradicionais africanos ressurgiram como crias.

A escola colocou uma ala carregando grandes palavras que têm origem na cultura banto, como “dengo”, “bamba” e “ginga”.

A presença da cantora e compositora Leci Brandão, 80, no terceiro carro alegórico da Mangueira, também levantou o público. Leci desfilou no carro que representava os zungus, espaços de convivência dos negros bantos no Rio de Janeiro. A alegoria levou ainda outros baluartes da agremiação.

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