Números de enterros de vítimas suspeitas de coronavírus cresce no Rio; criança pode não ter sido contabilizada

A cena é desoladora: coveiros vestidos com roupas brancas, máscaras de proteção e luvas grossas realizam enterros de vítima com suspeita da Covid-19. Para evitar contaminação, poucos parentes são autorizados a acompanhar os sepultamentos. Assim tem sido a rotina nos cemitérios do Rio, e as estatísticas crescem, independentemente da idade: fontes da prefeitura afirmam que, entre os enterrados, essa semana, está até uma criança cuja declaração de óbito veio como contaminação pelo coronavírus. O município diz oficialmente que não há confirmação de morte de crianças. 

Os números crescem a cada dia e já não batem: até sexta-feira (27), o governo assegurava dez mortos em todo o estado – seis na capital e quatro no interior. Mas a Coordenadoria de Cemitérios, vinculada à Subsecretaria Municipal de Conservação, informou que já houve 13 mortes, com sepultamentos e cremações, de casos confirmados pela Covid-19.

A Reviver, concessionária que administra sete cemitérios municipais do Rio, afirma que já realizou cinco enterros ou cremações de contaminados por Covid-19; 23 foram enterrados com a declaração de óbito ‘doença respiratória’; outros 31 foram por ‘causa indeterminada’.

Essas são algumas das mortes que podem cair na subnotificação, que é quando o paciente não consegue ser detectado com a doença, ou quando o hospital não consegue notificar os órgãos do governo. Um estudo da Escola de Londres de Higiene e Medicina Tropical (London School of Hygiene and Tropical Medicine), divulgado no domingo, afirma que o Brasil detecta em média 11% dos casos sintomáticos da Covid-19 – aproximadamente uma em cada dez pessoas.

Na noite de quinta-feira, uma senhora de 65 anos morreu, em Niterói, com suspeitas da doença. Mesmo sem o diagnóstico definitivo, o enterro precisou ser rápido e o corpo não pôde ter contato direto com os familiares.

“Ela estava em quarentena desde o início, sem problemas cardíacos ou respiratórios. Ela estava com sintomas moderados, foi levada ao hospital, foi constatado danos irreparáveis no pulmão, fizeram o teste, mas ela não aguentou até o resultado”, contou uma amiga da família. O caixão desceu ao túmulo lacrado.

Normas de segurança para os coveiros

Além da dor pela perda, a disseminação do coronavírus impede uma despedida digna aos parentes. Na terça-feira, o Diário Oficial do Município publicou recomendações para a manipulação de cadáveres contaminados ou suspeitos de contaminação. É importante o uso de máscaras N95, óculos de proteção, avental de mangas compridas e luvas descartáveis – ou duplas, que são mais grossas. Também foi recomendada a “redução do tempo de contato do manipulador com o cadáver, estando, portando, contraindicada a maquiagem do corpo”. O Ministério da Saúde também não tem recomendado velórios aos familiares.

“Toda declaração de óbito que vier com ‘insuficiência respiratória’, ‘insuficiência respiratória aguda’ ou ‘indeterminado’ a gente adota essa prática para a nossa segurança”, disse uma funcionária do Cemitério Murundu, em Realengo, que prefere não se identificar. Só lá, cerca de cinco mortos suspeitos de coronavírus foram enterrados sob esse procedimento de segurança. Um coveiro, que preferiu manter o anonimato, disse ter medo: “Bate a agonia conforme o tempo passa. Conversamos muito sobre isso aqui no cemitério. Não sabemos a causa do óbito, mas cada minuto que passa do enterro a gente se sente com mais risco de contaminação”.

“Nós seguimos o protocolo da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e semana que vem vou sentar com os agentes funerários para dar orientações.Toda vez que o médico colocar em suspeita, a gente vai seguir o recomendado. Nós estamos em conjunto conversando e prevenindo não só nossos funcionários como os agentes funerários”, explicou Vicente Temperini, secretário de Obras de Niterói.

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