"O tempo parou" num ‘kibbutz’ atacado perto de Gaza

Casas incendiadas e ruas cobertas de destroços, mobílias, roupas e brinquedos marcam hoje o cenário do ‘kibbutz’ Kfar Aza, sul de Israel, atacado pelo Hamas em 07 de outubro, e que era antes “95% Céu e 05% Inferno”.

Localizado a cerca de 1,5 quilômetros da Faixa de Gaza, esse ‘kibutz’ (pequena comunidade israelense) foi um dos primeiros a ser atacado por militantes do grupo islâmico. Dos 960 habitantes, 58 pessoas morreram, e 17, “incluindo muitas crianças”, foram feitas reféns pelos combatentes.

“Aqui, o tempo parou. Hoje é 7 de outubro, 05:45, quando os terroristas se infiltraram, e fizeram isso de três formas: pelo portão principal, por via aérea e com veículos, do lado ocidental, o mais próximo de Gaza”, relatou um oficial das Forças de Defesa de Israel (FDI), durante uma visita do ministro dos Negócios Estrangeiros português, João Gomes Cravinho, acompanhado dos homólogos israelenses, Eli Cohen, e eslovena, Tanja Fajon.

O chefe da diplomacia israelense descreveu a comunidade como “muito tranquila”, onde as pessoas “vinham passar férias” e “tinham uma boa qualidade de vida”.

Pequenas casas térreas distribuem-se pelo bairro, rodeadas de árvores e relva, intercaladas com vários abrigos, quase todos pintados com motivos florais coloridos.

“Em caso de se ouvir uma sirene, as pessoas têm 10 segundos para se esconder. É o tempo que demora a cair um foguete”, explicam as autoridades.

Cada casa também tem uma divisão que é um abrigo (‘safe room’), mas que no dia do ataque não serviu de proteção para muitas famílias.

“São espaços desenhados para se fugir em caso de emergência, e por isso as portas e janelas não podem ser trancadas”, justificou o militar.

Aos três ministros, o responsável mostrou o interior de algumas casas, queimadas ou crivadas de marcas de balas, onde muito ficou como naquela madrugada: escovas de dentes num copo em cima do lavatório e toalhas de banho penduradas atrás da porta.

“Atrás dos terroristas, vieram muitos habitantes normais de Gaza, que pilharam as coisas”, conta o militar, enquanto aponta para um monte de roupa atirada para o chão em frente a uma casa e pega numa peça de roupa, ainda com a etiqueta do preço: “Olhem, nova em folha, esta mulher nem teve tempo de a usar”.

Mostrando “fotografias horríveis”, o membro das FDI descreveu como os militares encontraram “muitos corpos com as mãos atadas, que foram alvejados na cabeça e queimados”.

“Há muitos casos em que não pudemos identificar os corpos. Em muitos locais, tivemos de trazer arqueólogos”, disse.

Desde o ataque, os habitantes foram transferidos para outro ‘kibutz’ mais próximo da capital, Tel Aviv, e a pequena vila permanece vazia.

“Depois do dia 7 de outubro, o mundo inteiro sabe que o Hamas cometeu atrocidades terríveis contra uma população indefesa, civil, mas vir aqui a um dos ‘kibutz’ que foi atacado e ver ‘in loco’ a enorme proximidade em relação a Gaza e as atrocidades que foram cometidas contra famílias, mães, pais, crianças pequenas, pessoas mais idosas, obviamente que é profundamente chocante”, comentou o ministro Gomes Cravinho, que salientou ao mesmo tempo a necessidade de pensar “no presente e no futuro”.

“A memória daquilo que aconteceu faz parte da nossa memória coletiva, e obviamente que aqui em Israel é uma memória profundamente dolorosa. Temos, no entanto, de olhar agora para aquilo que se pode fazer hoje, o que se pode fazer amanhã e, a partir dessas ideias, começar a pensar como é que se vai construir a paz”, salientou.

A ministra eslovena admitiu-se igualmente chocada com o cenário de destruição no ‘kibutz’.

“Cada civil inocente, cada criança, cada mulher que está aqui é uma vítima. Estamos solidários e em luta contra todas as formas de extremismo”, disse Tanja Fajon.

O chefe da diplomacia israelense destacou: “Estamos obrigados a eliminar o Hamas. Temos de libertar Gaza do Hamas, para a segurança de Israel e também pelo povo de Gaza, e temos de garantir que tais atrocidades não vão repetir-se em qualquer lugar no mundo”.

A visita decorreu ao início da manhã, poucas horas depois do início da trégua de quatro dias nos combates acordada entre Israel e o Hamas.

 *** Joana Haderer (texto) e André Sá (vídeo), enviados da agência Lusa ***

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