Policiais civis da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), deflagraram, nesta quarta-feira (15/07), a “Operação Hawala”, com o objetivo de desarticular uma sofisticada rede de lavagem de dinheiro que movimentou mais de R$ 100 milhões provenientes do tráfico de drogas. As investigações apontaram que a estrutura financeira prestava serviços ao Terceiro Comando Puro (TCP) e também ocultava recursos ligados ao Comando Vermelho (CV) e ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Durante as apurações, os agentes identificaram ainda uma possível conexão financeira internacional com um integrante de uma estrutura de financiamento da organização terrorista Al-Qaeda. A ação mobiliza policiais do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) para cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão, além de medidas cautelares de bloqueio de ativos financeiros, indisponibilidade de bens e participações societárias. As diligências ocorreram em endereços no Rio de Janeiro, em São Paulo, Minas Gerais e Foz do Iguaçu. Ao todo, os 10 mandados de prisão foram cumpridos e os agentes apreenderam celulares, documentos e dinheiro em espécie.
A investigação teve início a partir da atuação do TCP no Complexo de São Carlos, na Região Central do Rio. Ao longo das diligências, os agentes descobriram que a mesma engrenagem financeira também era utilizada para lavar recursos provenientes de outras facções criminosas, como o CV e o PCC, funcionando como uma espécie de “prestadora de serviços” para diferentes organizações criminosas.
De acordo com as apurações, entre 2021 e 2024, a estrutura movimentou mais de R$ 100 milhões por meio de dezenas de empresas de fachada distribuídas em diferentes estados. Esses empreendimentos eram utilizados para conferir aparência de legalidade ao dinheiro obtido com o tráfico de drogas, receptação qualificada e comercialização de produtos falsificados. As análises financeiras contaram com o apoio do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) da Polícia Civil.
O trabalho investigativo identificou toda a engenharia empregada para ocultar a origem ilícita dos recursos. Os criminosos utilizavam empresas de fachada, transferências sucessivas entre pessoas jurídicas vinculadas, depósitos fracionados em espécie, interpostas pessoas para movimentação bancária e operações incompatíveis com a capacidade financeira declarada pelos investigados.
Durante as diligências, os agentes identificaram ainda um núcleo de empresários de origem libanesa apontado como responsável por ampliar a circulação interestadual e internacional dos recursos ilícitos. Empresas registradas em São Paulo e Minas Gerais eram utilizadas para movimentar valores entre operadores financeiros, empresas de fachada e integrantes das organizações criminosas no Rio de Janeiro.
As investigações também identificaram elementos que indicam a atuação de integrantes desse núcleo na região conhecida como Tríplice Fronteira (Brasil–Paraguai–Argentina), área que, segundo organismos nacionais e internacionais de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, é historicamente monitorada como um importante polo de operações financeiras e logísticas de grupos terroristas. Essas organizações arrecadam recursos por meio de práticas como lavagem de dinheiro, contrabando e tráfico de drogas, além de manterem ligações com facções criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho. Segundo as apurações, essa estrutura teria sido utilizada para ampliar a capacidade de circulação internacional dos recursos investigados.
Os agentes também identificaram uma relação comercial entre uma empresa vinculada aos investigados e um indivíduo sancionado pelo Office of Foreign Assets Control (OFAC), órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos responsável pela aplicação de sanções econômicas. De acordo com as informações levantadas, esse indivíduo integra uma estrutura de financiamento da organização terrorista Al-Qaeda. Esse vínculo será aprofundado a partir da análise das provas apreendidas durante a operação.
As apurações envolveram inteligência financeira, cruzamento de dados fiscais, societários e telemáticos, além da reconstrução do fluxo dos recursos utilizados para ocultar valores de origem ilícita. Os dados coletados apontaram que uma operadora financeira administrava empresas que movimentaram mais de R$ 47 milhões no período investigado, enquanto um contador responsável pela escrituração de empresas ligadas ao núcleo financeiro da organização criminosa seria um dos principais facilitadores do esquema. Segundo as investigações, ele desempenhava papel fundamental para conferir aparência de regularidade às empresas utilizadas na lavagem de dinheiro, deixando de cumprir obrigações legais relacionadas à prevenção desse crime e à comunicação de operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Sua atuação é apontada como determinante para a manutenção da estrutura empresarial empregada no esquema. Ainda segundo os agentes, o investigado já figurou em outros inquéritos policiais relacionados a fraudes societárias envolvendo alterações contratuais de empresas inativas e constituição de sociedades utilizadas para práticas ilícitas.
A ofensiva desta quarta-feira teve como objetivo sufocar financeiramente as organizações criminosas e desarticular a estrutura responsável pela movimentação e ocultação de seus recursos. As investigações prosseguem para identificar outros integrantes do esquema, localizar novos ativos e aprofundar as linhas investigativas relacionadas às movimentações internacionais dos valores ilícitos, em cooperação com órgãos nacionais e estrangeiros especializados no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

