Portugal tem 30% dos jovens nascidos no país vivendo no exterior

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – Cerca de 30% dos jovens nascidos em Portugal vivem hoje fora do país. Nesse universo de mais de 850 mil pessoas dos 15 aos 39 anos, há cada vez mais profissionais qualificados, que partem majoritariamente para outros destinos europeus.

Esses dados integram a nova edição do Atlas da Emigração Portuguesa. Embora se trate de um fenômeno multifatorial, as questões econômicas, como a busca por melhores salários, aparecem no topo das motivações para sair do país.

“Na minha faculdade, por exemplo, desde o primeiro dia de aula nós já pensávamos na possibilidade de ir para fora, porque Portugal não nos dá as condições salariais ou de ‘escalabilidade’ na carreira. É mais do que justo o trabalhador querer ser recompensado por aquilo que faz, mas os salários para os jovens em Portugal ainda são muito baixos”, disse a economista Mafalda Rebordão, 27.

Depois de uma temporada em Dublin, a jovem vive agora em Londres, onde trabalha na área de parcerias estratégicas de inteligência artificial no Google. “Além do salário baixo, os portugueses vivem sob uma carga fiscal muito elevada. Portanto, é muito difícil para um jovem criar patrimônio e ter uma vida confortável.”

Em meio à escalada do custo de vida, puxada sobretudo pelo aumento dos preços da habitação, uma pesquisa realizada em julho de 2023 revelou que mais da metade dos jovens portugueses de 18 a 34 anos cogitam emigrar.

Inscrito em um curso intensivo de programação em Lisboa, Tiago Simões, 23, pretende se mudar para a Alemanha ou para a Holanda quando terminar a formação. Ele conta que vários de seus colegas de turma têm ambições semelhantes. “Penso em viver fora por pelo menos um 5 ou 6 anos, para conseguir desenvolver minha carreira e juntar algum dinheiro. Meu irmão vive em Madri, tenho primos na França, acho que a ideia de sair do país sempre esteve presente para mim.”

A saída em massa de jovens pode afetar a economia e demografia do país no futuro. “É um número muito alto [da saída de jovens], com um efeito muito complicado na fecundidade”, afirmou Rui Pena Pires, coordenador científico do Observatório da Emigração, grupo de pesquisa responsável pela publicação, em entrevista ao jornal Expresso.

Pires disse que quase um terço das mulheres em idade fértil emigrou, fazendo com que, atualmente, o número de filhos de portuguesas nascidos no exterior já equivalha a “cerca de 20% do total de nascimentos em Portugal”.

Segundo o relatório, em termos relativos, Portugal aparece em primeiro lugar nas taxas de emigração na Europa, ficando em oitavo no ranking mundial, descontando os pequenos países com menos de 1 milhão de habitantes.

Dados da ONU indicam que aproximadamente 2,1 milhões de pessoas nascidas em território português, cerca de 20% da população, vivem hoje fora do país. O Brasil, com uma população 20 vezes maior, tem 1,9 milhão de emigrantes.

A emigração é um fenômeno antigo para os lusitanos, que historicamente deixaram o país em períodos de grandes crises. Até o fim da década de 1950, o Brasil foi o principal destino. A partir dos anos 1960, contudo, a Europa substituiu a América como maior receptora do fluxo português.

Graças à liberdade de circulação para os cidadãos da União Europeia, os portugueses podem viver e trabalhar facilmente nas demais 26 nações do bloco, uma comodidade que contribuiu para que 80% dos novos emigrantes se dirijam a outros destinos do continente.

Recordista na saída de portugueses nos anos recentes, 2013 teve mais de 120 mil cidadãos lusos mudando para outros destinos. Embora as cifras atualmente estejam bem abaixo desses valores, o relatório indica que a emigração “não dá sinais de esgotamento”. Em média, nas duas primeiras décadas deste século, cerca de 75 mil portugueses deixaram o país todos os anos.

Para tentar estancar a emigração, as autoridades lusas vêm tentando uma série de iniciativas para desencorajar as partidas e, ao mesmo tempo, trazer de volta os que já foram. No fim de 2023, o Executivo anunciou um bônus financeiro para jovens de até 35 anos que tenham concluído o ensino superior em Portugal e que permaneçam para trabalhar no país. Desde que se encaixem em alguns pré-requisitos, os integrantes desse grupo poderão se candidatar a receber o valor, que será proporcional aos anos de estudo no curso superior. O governo pagará € 697 (cerca de R$ 3.722) por ano de licenciatura e € 1.500 (R$ 8 mil) por ano de mestrado.

Outra aposta dos governantes é o programa Regressar, lançado em 2019, que oferece incentivos fiscais e um pagamento adicional, que pode chegar a € 8 mil (R$ 42,7 mil), a quem voltar ao país. Cerca de 20 mil portugueses já aderiram à iniciativa.

A saída dos jovens, combinada ao saldo natural deficitário -o número de mortes supera o de nascimentos há mais de uma década-, faz com que Portugal dependa cada vez mais da imigração para manter o equilíbrio populacional.

Impulsionado por medidas que incentivaram a chegada de estrangeiros, inclusive a criação de um visto especial para cidadãos de nações da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), o número de imigrantes atingiu seu valor mais elevado em 2023. Contabilizadas todas as modalidades de vistos e autorizações de residência, eram cerca de 1 milhão de migrantes legalmente residentes.

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