Pré do pré-Carnaval antecipa tendência do ‘vai como quiser’ em SP

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Já é Carnaval na maior cidade do Brasil. Durante este fim de semana, o que se viu foi um grupo diverso de foliões nos ensaios de blocos da capital paulista. “Croppeds”, “bodies”, camisões de chita ou um minúsculo tapa-sexo, independentemente do gênero de quem usava, além das divertidas tiaras de florezinhas e das botinhas coloridas, ajudaram a compor o “look” do “vai como quiser”.

Os acessórios mais comuns, porém, foram o leque -para aplacar o calor infernal- e a velha pochete, que já foi tachada de cafona, mas hoje é vista como a solução para tentar salvar os pertences.

“Quem, ao menos na região central de São Paulo, está preocupado com a roupa ou o estilo de quem sai na rua atrás de diversão?”, questionava o empresário Antônio Souza, 51.

Ele usava um shortinho rosa quase coberto por um camisão vermelho feito de chita e, na cabeça, ostentava uma tiara com a Minnie Mouse –sim, é claro, levava a sua pochete também, da cor preta. Nos pés, um par de botas, do tipo Dr. Martens, amarelas.

De body preto com franjinhas, a arquiteta Aline Serra veio de Jundiaí comemorar seus 30 anos no bloco Nu Vuco Vuco, na Barra Funda, zona oeste paulistana, na tarde de sábado (20).

“‘Look'”, disse ela, “é o que a gente se sente bem e confortável”. Mais: “O Carnaval é a maior expressão de liberdade. Corpos e mentes livres”, falou, enquanto dançava e celebrava ao som de uma axé music.

O que já está claro neste pré do pré-Carnaval é que não há uma tendência ou um padrão estético imposto a quem pretende acompanhar os blocos de rua em São Paulo.

“Não é a escolha da roupa que vai traduzir a diversidade da folia paulistana”, afirma a engenheira mecânica Mayara Garcia, 30, de Pinheiros, também na zona oeste. “Aqui, tudo dialoga com a liberdade. Afinal, o Carnaval é um ato político. É o momento de se expressar, seja pelo corpo, seja pela roupa, qualquer uma, seja até mesmo pela nudez”, segue ela. “É um gesto de reforço democrático.”

Na opinião de Tarcisio D’Almeida, 50, professor de moda da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o Carnaval é, ao mesmo tempo, a maior festa popular do país, um símbolo cultural brasileiro e ainda um reflexo da realidade política nacional. “Assim como a moda, o ato de se vestir com fantasia é uma prática política”, explica. “A realidade econômica impulsionou a criatividade dos foliões, que estão reciclando, ressignificando, suas roupas para curtir a festa.”

Em meio a esse cenário, o que podemos encontrar de novidade são os acessórios, segundo o professor. “Sendo assim, podemos dizer que cada um acaba criando a sua própria fantasia.”

Integrantes do bloco Feminista chegaram ao “look” carnavalesco 2024 após oficinas coletivas. “São figurinos agêneros que mantêm a unidade, respeitando a diversidade de corpos”, conta Camila Pereira, 36, diretora e regente de bateria. Agênero refere-se a uma identidade que desafia o padrão binário de feminino-masculino.

Com o tema “Feminismo Futurista Para Nutrir o Mundo”, o cortejo irá desfilar pelas ruas da Consolação, da Vila Madalena e do Jardim União, na zona sul da capital, entre o pré, o durante e o pós-Carnaval.

Um dos blocos mais tradicionais do Carnaval paulistano, o Acadêmicos do Baixo Augusta fez no domingo (21) seu segundo ensaio.

“Este é o ano da reafirmação da necessidade de resistência do processo de ocupação cultural e artística das ruas de forma democrática, diversa e plural”, diz Alê Youssef, um dos fundadores.

Cerca de 2.000 pessoas lotaram o galpão cultural do MST, com entrada gratuita, nos Campos Elíseos, na região central. Acostumado a arrastar multidões, o bloco ainda terá mais um ensaio no domingo que vem (28), no mesmo endereço. Na rua, mesmo, o Baixo Augusta sairá no próximo dia 4.

O que é uma tradição em lugares como Rio, Recife, Olinda e Salvador, a antecipação do Carnaval vem se tornando uma realidade em São Paulo. Ao ampliar o período oficial de festas para os foliões, esse traço de elasticidade exige também uma atenção maior do poder público.

Por enquanto, ao menos três problemas ficaram evidentes durante este fim de semana de aquecimento na metrópole paulistana: excesso de lixo, concentração de ambulantes e ausência de banheiros químicos.

No bloco Nu Vuco Vuco, na Barra Funda, por exemplo, apenas dois banheiros estavam em funcionamento para atender ao público. Pessoas sem educação e sem paciência para esperar a sua vez na fila usavam ruas e calçadas para se aliviar.

Espera-se, contudo, que, até Quarta-Feira de Cinzas, esse gesto desrespeitoso seja coisa do passado.

Por sua vez, a Prefeitura de São Paulo informa que os ensaios precisam de autorização prévia da subprefeitura em que são realizados e que cabe ao bloco a responsabilidade pela limpeza e pela infraestrutura.

Para essa temporada carnavalesca, a prefeitura, no entanto, não soube informar quantos banheiros públicos estarão disponíveis aos foliões.

Os acessórios mais comuns, porém, foram o leque e a velha pochete 

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