‘Prisômetro’ de Nunes tem mais força eleitoral do que transparência, dizem especialistas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O “prisômetro” inaugurado pela gestão Ricardo Nunes (MDB) na sede do Smart Sampa marca posição política, mas não resolve problemas antigos do projeto, como o controle social externo e a possibilidade de auditar a operação e saber, por exemplo, quantos erros têm ocorrido.

 

É o que dizem especialistas ouvidos pela Folha após o lançamento do painel na terça-feira (25), que informa o número de prisões feitas pela GCM (Guarda Civil Metropolitana) a partir das imagens captadas pelo programa.

Com 23 mil câmeras na cidade e tecnologia de reconhecimento facial, o Smart Sampa é uma das principais bandeiras da administração municipal para a área de segurança.

Na tarde desta quarta-feira (26), o painel indicava 1.909 prisões em flagrante.

No visor também constavam 723 foragidos da Justiça capturados, 405 presos em 2025, 147 presos em fevereiro deste ano e 41 pessoas desaparecidas que foram encontradas.

Transparência seria dizer se os números são auditáveis e quantas pessoas foram abordadas ou identificadas, segundo a coordenadora de enfrentamento à violência institucional da ONG Conectas Direitos Humanos, Carolina Diniz. “A cidade perde com uma política baseada em populismo penal e que fica alarmando a população.”

É o que também diz Pedro Saliba, coordenador de assimetrias e poder na organização Data Privacy Brasil. “No nosso entendimento não é transparência, porque transparência é entender qual a tecnologia usada, quais os equipamentos e empresas operando [os programas] e especialmente ter algum tipo de controle social, grupos de especialistas da sociedade civil e academia pensando essa governança dos dados.”

“Imagino que o ‘prisômetro’ não vai dizer quantas pessoas foram presas ilegalmente ou quantas abordagens equivocadas foram realizadas por erros do sistema de reconhecimento facial”, completa Saliba, que cita grupos de pessoas negras, trans, crianças e adolescentes entre os mais suscetíveis a erros.

Procurada, a gestão Nunes não respondeu sobre os questionamentos ao “prisômetro”.

A sensação de insegurança também é vista como um possível efeito do painel pelo conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Alan Fernandes, que vê um resultado ruim na tentativa da gestão Nunes de divulgar ações contra a criminalidade.

“Me soa como assumir uma situação ruim na segurança pública, imagine um estrangeiro que vem aqui e vê, vai gerar mais insegurança. É uma forma mal elaborada da prefeitura de prestar contas do que faz”, afirma o especialista. Ele também pede mais transparência para o Smart Sampa, e afirma que o programa pode trazer bons resultados.

Fernandes também diz nunca ter visto, em visitas ou na literatura de pesquisa, exemplos de um painel para mostrar prisões e seus efeitos.

“O prefeito, fazendo referência ao que antes era o impostômetro, se coloca em uma primeira grande ação do seu mandato como alguém que está discutindo segurança pública com um viés mais punitivista, fazendo um aceno para setores mais conservadores.”

Nunes, segundo o professor, também encampa o trabalho pela segurança, principal preocupação dos paulistanos segundo o último levantamento do Datafolha sobre o tema.

O interesse político mira a disputa de 2026. Isso porque, para Salvarani, o prefeito é um dos principais nomes da centro-direita para a disputa do Palácio dos Bandeirantes -em um cenário no qual Tarcísio de Freitas (Republicanos) desista da reeleição para disputar a presidência.

A gestão Nunes também tenta atingir a população periférica, diz o professor da ESPM, que convive diariamente com uma sensação de impunidade na cidade de São Paulo. Para ele, esse “monumento ao punitivismo” aumenta o capital político do prefeito.

Ao longo desse ano e em meio a um fortalecimento do poder ostensivo de guardas municipais, a receita deve ser mantida e pode ganhar aditivos como o aumento de efetivo e de equipamentos para a estrutura municipal de segurança, afirma Salvarani. O tema da segurança, para ele, está entre os três principais do eleitorado, junto com aumento de preços e emprego e renda.

Tanto Salvarani, da ESPM, quanto Fernandes, do Fórum, apontam que há pouco ônus à administração municipal na questão da segurança, já que a prefeitura divulga os números de prisões feitas, mas não precisa responder por políticas prisionais ou por reversões na Justiça.

Na última sexta-feira (21), o núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública de São Paulo recomendou que não fossem usados tecnologia de reconhecimento facial ou o perfilamento e identificação remota de indivíduos em meio a blocos de carnaval.

Na terça (25), após o anúncio do painel, a Defensoria Pública-Geral de SP publicou uma nota na qual “defende, no entanto, que sua aplicação ocorra com transparência, controle e respeito aos direitos de toda a população.”

 

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