Sobrevida após transplante, como Faustão, depende de condição de saúde prévia

DANIELLE CASTRO
RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) – Para quem tem uma disfunção grave de órgãos como o coração e o rim, passar por um transplante pode significar mais tempo e mais qualidade de vida. A sobrevida após ser transplantado, entretanto, depende das doenças pré-existentes no paciente, do bom funcionamento dos transplantes recebidos e de um pós-cirúrgico rigoroso.

Casos como o do apresentador Fausto Silva, o Faustão, que recebeu um novo coração em agosto do ano passado e teve os rins transplantados no último dia 26 de fevereiro, porém, tendem a impor mais desafios pela própria complexidade de passar por duas grandes cirurgias.

João Brunhara, médico urologista do Hospital Israelita Albert Einstein e membro do comitê científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, reforça que a literatura médica recomenda que transplantes de múltiplos órgãos sejam feitos mesmo por etapas, tal qual realizado em Faustão.

“Essa estratégia que foi feita, de primeiro transplantar o coração para depois, se necessário, o rim, tem resultados melhores do que fazer os dois órgãos ao mesmo tempo”, diz Brunhara.

Isso ocorre porque receber dois órgãos de uma vez pode demandar muito do organismo (muitas vezes já debilitado por doenças prévias), tanto pelo procedimento cirúrgico mais longo quanto pela fase de recuperação e aceitação dos transplantes pelo corpo.

“É uma situação mais delicada [a de múltiplos transplantes] que [a da pessoa que tem] só o transplante cardíaco, mas dentre os que têm doença cardíaca e renal fazer o transplante renal não piora o prognóstico em relação a, por exemplo, ficar fazendo apenas diálise”, destaca o urologista.

O especialista lembra que, além da possibilidade de rejeição do órgão recebido e da baixa da imunidade provocada pelo tratamento de imunossupressão (feito para aumentar as chances de aceitação do transplante), somam-se aos riscos inerentes da cirurgia outros problemas que se conectam na fase de recuperação.

“Quando você tem um coração que não funciona bem, isso acaba se refletindo na função renal. Agrega complexidade ao tratamento. [Mas] na pessoa que tem um transplante cardíaco e também tem uma doença renal grave, o fator que está minando prognóstico não necessariamente o transplante em si”, afirma Brunhara.

Na última quinta-feira (14), Faustão precisou passar por uma embolização, procedimento cirúrgico que interrompe o fornecimento de sangue a uma parte do corpo. Em nota, a família do apresentador disse que o implante de renal foi bem-sucedido, mas que o procedimento gerou um atraso na recuperação e ele ainda aguarda “pelo início do funcionamento do órgão.”
Segundo o médico cirurgião Alexandre Sallum, assistente do grupo de transplantes renais da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e chefe de transplante renal do Hospital Santa Catarina, Unidade Paulista, as técnicas e tecnologias para o recebimento de coração e rins no Brasil hoje permitem uma taxa de sobrevida considerada muito alta.
“Óbvio que quando você associa dois transplantes, pela complexidade dos procedimentos em si, podem existir alterações que diminuem a sobrevida do paciente”, diz Sallum.

Itens como tempo curto entre os dois transplantes e a característica invasiva das cirurgias podem, portanto, aumentar, por exemplo, chances de sangramentos e de infecção.

Doar ou receber um órgão ainda assim não deve ser motivo de aflição, pois, apesar de sujeito a complicações, o procedimento, em geral, melhora as perspectivas do paciente.

“A qualidade de vida de uma pessoa após um transplante de sucesso é excepcional. Ela volta a ter uma vida absolutamente normal e isso é muito gratificante”, afirma Sallum.

Para garantir esses resultados, o paciente precisa assumir uma rotina mais saudável, com dieta regrada, hidratação, esforço controlado, atenção a feridas e, quando a cicatrização estiver adequada, prática de exercícios físicos.

“Também é muito importante o acompanhamento muito próximo do seu médico, com a equipe, e tomar as medicações nos horários certos. Isso é fundamental para a gente diminuir a chance de rejeição”, pondera o cirurgião.

Brunhara diz que para manter uma qualidade de vida satisfatória depois de um transplante, não pode haver desatenção. “É preciso um controle e também cuidados com pressão, diabetes, manter as vacinas em dia, saúde em geral. Tem que ser o mais rigoroso possível”, afirma o urologista. Ao primeiro sinal de alguma infecção, o transplantado deve procurar pronta ajuda médica.

Os médicos alertam que, mesmo fazendo tudo certo, os risco de rejeição e de disfunções existem, inclusive anos depois da operação. “É importante nunca baixar a guarda, sempre estar pronto para para tratar, ter um acompanhamento muito muito próximo da equipe de transplante para poder detectar e agir. Mas, mesmo assim, é transplante. Ele oferece uma qualidade de vida muito superior que viver com com a disfunção do órgão que a pessoa tinha”, avalia Brunhara.

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