Aos 39 anos, o projetista Leandro Barreto Alevato mora com a mulher e os quatro filhos numa casa simples em Realengo e enfrenta problemas financeiros. Trabalhando sem carteira assinada, ele recebe R$ 1.500 por mês e deve R$ 5 mil a bancos. Tentou cadastrar-se para receber o benefício emergencial de R$ 600 do governo federal, mas não obteve sucesso. No entanto, em meio a essas dificuldades, seu nome aparece, na Receita Federal, como empresário, dono de uma companhia que prestava serviços para o Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas), organização social que é alvo de investigações por conta de contratos superfaturados com o estado e a prefeitura do Rio. Leandro confirmou, sexta-feira, que concordou ser um laranja:
— Perguntaram se eu poderia emprestar meu nome para disputar concorrências. Eu aparecia como dono de uma empresa (Backraft Construções), mas não respondia por ela. Não sei quantas propostas apresentaram para o Iabas. Nunca ganhei nada e não sabia que o objetivo era desviar dinheiro público. Hoje me sinto mal com isso.
Segundo uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado do Rio, Leandro foi um dos laranjas de um esquema de fraudes montado por Luiz Eduardo Cruz, ex-controlador do Iabas. Luiz Eduardo, a mulher e outras três pessoas foram presas na última quinta-feira sob a acusação de desviarem pelo menos R$ 6,5 milhões em verbas da Saúde do município, com o qual a organização social teve contratos que movimentaram cerca de R$ 3,5 bilhões entre 2009 e 2019, quando acabou sendo descredenciada. Há suspeita de que o grupo ganhou mais dinheiro de forma ilícita, forjando concorrências.
De acordo com policiais e promotores, o Iabas terceirizava serviços e adquiria produtos de empresas que pertenciam a diretores da própria organização social ou a laranjas. Um trecho do inquérito que cita Leandro aborda uma concorrência que o instituto abriu para escolher uma empresa de serviços de manutenção em unidades de saúde. A fraude visava a favorecer a companhia Escala X (de propriedade de uma cunhada de Luiz Eduardo). A Backraft Construções, afirma a denúncia do Ministério Público, aparecia no esquema apresentando orçamento mais alto. A Escala X saiu vencedora da disputa e fechou um contrato de R$ 491 mil.
Uma outra participante de concorrências abertas pelo Iabas é a Remark Rio, cuja sede fica em frente à casa de Leandro. Ele contou que, na época em que foi chamado para ser laranja, trabalhava numa empresa vizinha.
O projetista frisou que nada recebeu para emprestar seu nome à Backraft Construções.
— Na verdade, a Backraft Construções e a Renmark Rio tinham o mesmo proprietário — disse Leandro, que, apesar de ser citado no inquérito, não foi chamado para prestar depoimento.
O suposto dono das empresas teria morrido de Covid-19 algumas semanas atrás. O GLOBO esteve nos endereços da Backraft Construções e da Renmark Rio para pedir entrevistas a seus representantes, mas não obteve contato. Até este mês, a segunda prestava serviços para o Iabas na gestão do Hospital Adão Pereira Nunes, que foi assumida pela prefeitura de Duque de Caxias.
A equipe de reportagem do Jornal O Globo esteve no endereço onde morava uma das pessoas presas na última quinta-feira. Segundo o Ministério Público, ela era uma operadora de telemarketing que também emprestou o nome para fraudes do Iabas. Apontada como sócia de três empresas, teria recebido R$ 743.900 de participação nos lucros em 2012, e, na mesma época, ganhava um salário de R$ 2 mil numa companhia supostamente ligada a Luiz Eduardo Cruz.
O endereço que consta da denúncia é uma casa num acesso ao Morro São João, no Engenho Novo. Vizinhos disseram que a ex-moradora se mudou há dois anos, e se mostraram surpresos com sua prisão. “Era uma moça simples”, afirmou uma aposentada. Mensagens eletrônicas interceptadas pela Polícia Civil indicam que a acusada costumava fazer transferências de dinheiro sob a orientação de Simone Cruz, mulher de Luiz Eduardo, outra presa na operação.
Aposentado envolvido
Ainda segundo o inquérito, Luiz Eduardo usou como laranja um aposentado que havia trabalhado numa empresa de sua família. Ele mora em Bangu, num imóvel que pertence a Simone. O GLOBO esteve no endereço,mas não foi recebido. Por interfone, uma mulher que se identificou como funcionária da casa disse:
— A gente tem ciência das denúncias, mas ninguém vai falar. Ele é idoso e está muito doente, mal sai da cama.
Em nota, advogados de Luiz Eduardo e Simone informaram que seus clientes são os maiores interessados no esclarecimento dos fatos e estão à disposição das autoridades para provar que são inocentes. A defesa destacou que ambos são do grupo de risco e que a decisão da Justiça de mantê-los presos aumenta o risco de contraírem a Covid-19.
O Iabas, por sua vez, informou que vem colaborando nas investigações e lembrou que Luiz Eduardo Cruz não faz parte de seus quadros desde 2017.
Instituto é alvo frequente de denúncias de fraudes no setor público de saúde
Fundado em 2008, o Iabas é uma organização social (OS) habilitada a atuar na administração de projetos e prestação de serviços na área da saúde por intermédio de convênios e contratos. Seu primeiro endereço era o de um consultório dentário. Ao longo de 12 anos, o Iabas recebeu pelo menos R$ 5,2 bilhões em recursos do poder público. Desse total, R$ 3,5 bilhões foram pagos pela prefeitura do Rio — que o descredenciou em 2019, transferindo para a empresa municipal RioSaúde a gestão de suas unidades de atendimento médico.
Fonte: O Globo

